MUDE. Toda a beleza do mundo em 502 joias contemporâneas
Há uma pulseira que parece feita de borracha. Simples. Quase despretensiosa. Mas quando a segura nas mãos e percebe o peso, descobre o que está lá dentro: ouro maciço. É uma criação do alemão Otto Künzli, e resume tudo o que vai encontrar no MUDE este outono. O que parece simples esconde uma profundidade inesperada. O que parece comum revela uma beleza que exige o nosso reconhecimento.
O Museu do Design de Lisboa abriu as portas a duas exposições que colocam a joalharia contemporânea no centro da cidade. No total, são 502 peças que nos convidam a repensar o que é uma joia — e, por extensão, o que é o valor, a beleza e o próprio ato de criar.
O que encontra no MUDE
O piso 2 do museu, na Rua Augusta, acolhe duas mostras complementares que integram a programação oficial da 3.ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa.
A primeira é a Coleção Tereza Seabra, uma doação extraordinária ao Município de Lisboa que reúne 346 obras de 196 autores — 84 portugueses e 112 estrangeiros. Tereza Seabra, artista, galerista e professora de 82 anos, passou mais de quatro décadas a reunir estas peças. Não é uma antologia do seu trabalho, mas sim um espelho da sua visão enquanto colecionadora e da rede de cumplicidades que construiu com diferentes gerações de criadores.
A segunda é "Coexistências – A Joalharia e a Beleza do Mundo", a exposição nuclear da Bienal, com curadoria de Marta Costa Reis e Patrícia Domingues. Aqui, o tema é claro: como podemos coexistir de forma mais justa, empática e interligada com os outros mundos que nos rodeiam — o mineral, o microbiano, o fúngico, o vegetal, o animal, o espiritual e o digital?
Uma pulseira que esconde ouro (e uma lição sobre o valor)
A história da pulseira de Otto Künzli é o melhor ponto de partida para entender o que distingue a joalharia contemporânea. Por fora, borracha. Por dentro, ouro. A diretora do MUDE, Bárbara Coutinho, explica o que está em jogo: "Não é o valor do material que aqui interessa, é o valor do conceito, a ideia, o desafio de reflexão proposto".
Esta inversão — o precioso escondido no comum — atravessa toda a exposição. Vai encontrar criações feitas a partir de cascas de cebola (numa gola gigante que é tão visualmente forte quanto efémera), lamelas de comprimidos, película de ovo, laranja desidratada, pêlos humanos, areia de uma praia artificial ou velhas carcaças de telemóveis.
Materiais que normalmente associamos ao lixo ou ao desperdício tornam-se, aqui, veículos de reflexão sobre o corpo, a sociedade e a cultura. Como diz Bárbara Coutinho, "podemos encontrar o belo nas coisas mais comuns, que requerem o nosso reconhecimento".
Tereza Seabra: a mulher que colecionou meio século de joalharia
Tereza Seabra nasceu em 1944. Aos 82 anos, continua ativa e a apoiar novos joalheiros. A sua coleção é um mapa visual de uma vida dedicada à joalharia contemporânea — como criadora, como professora, como galerista e, agora, como doadora.
As peças mais antigas remontam a 1968, apesar de a exposição não estar organizada cronologicamente. O que une este conjunto é a visão de uma colecionadora que nunca se deixou levar pelo valor material, mas sempre pelo valor conceptual.
A incorporação desta coleção no MUDE não é um acidente. Desde 2019, o museu tem vindo a constituir um núcleo de joalharia contemporânea em parceria com a PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea. A doação de Tereza Seabra dá agora uma nova escala a esse projeto, consolidando Lisboa como um ponto de referência neste campo a nível internacional.
"Coexistências": a exposição que pergunta como habitamos o mundo
Se a Coleção Tereza Seabra olha para o passado — para seis décadas de criação —, "Coexistências" olha para o futuro. E fá-lo com urgência.
A exposição parte de uma pergunta central: como podemos coexistir de forma mais justa e interligada?. Num momento em que a inteligência artificial se torna predominante, os curadores convidam-nos a questionar as outras inteligências que existem no mundo e com as quais raramente nos relacionamos.
"O que nos diz uma pedra, um pau, uma pinha, os animais? Temos dificuldade em comunicar", reflete Marta Costa Reis. A joalharia, com a sua capacidade de operar na fronteira entre corpo e mundo, entre matéria e símbolo, é o veículo perfeito para esta exploração.
O design expositivo, assinado por Miguel Vieira Baptista, recria um gabinete de curiosidades contemporâneo, com tons de terracota e uma densidade visual que convida à classificação e à descoberta. As joias parecem flutuar em estruturas transparentes de acrílico e acetato de poliuretano, num design que desmaterializa o suporte e coloca as peças no centro da atenção.
O que torna esta exposição diferente de tudo o que já viu
1. A joalharia não é um acessório
A primeira coisa que precisa de esquecer é a ideia de que uma joia é apenas um adorno. Aqui, cada peça é uma obra de arte conceptual que interpela o corpo, a sociedade e a ecologia. A joia é um objeto que sempre operou na fronteira — entre o corpo e o mundo, entre a matéria e o símbolo, entre a presença e a memória.
2. O valor não está no material
Ouro, prata, diamantes? Tudo isso existe, claro. Mas o que interessa aqui é o conceito. Uma gola feita de casca de cebola pode ser tão valiosa — conceptualmente — como um colar de diamantes. A pergunta que fica é: porque é que damos valor ao que damos?
3. Materiais que contam histórias
Os artistas representados nesta exposição usam materiais que falam. Lamelas de comprimidos falam de saúde e doença. Película de ovo fala de fragilidade e proteção. Carcaças de telemóveis falam de tecnologia, obsolescência e memória. Cada material é uma escolha, e cada escolha é uma declaração.
4. Uma bienal que vai além do museu
O MUDE é o epicentro, mas a 3.ª Bienal de Joalharia Contemporânea estende-se por vários espaços de Lisboa, incluindo o Convento dos Cardaes e o Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual. São mais de 25 exposições e iniciativas paralelas, além de masterclasses, conferências e um simpósio internacional nos dias 25 e 26 de setembro.
O que não pode perder
As masterclasses
Entre 19 e 23 de setembro, o Ar.Co acolhe masterclasses com alguns dos nomes mais importantes da joalharia contemporânea internacional, como Ted Noten e Sofia Björkman. Uma oportunidade rara de aprender com quem está a definir o futuro da área.
O colóquio internacional
Nos dias 25 e 26 de setembro, o MUDE organiza um colóquio que reúne artistas, investigadores e pensadores de diferentes disciplinas. O programa está organizado em três sessões: "Materialidade Sentiente", "Alteridade" e "Tecnopoesia". Cada sessão é um convite a repensar as relações que nos constituem e a imaginar formas mais atentas e justas de habitar o mundo.
O "Jewellery Room"
Entre 25 e 27 de setembro, o Convento dos Cardaes acolhe o "Jewellery Room", um espaço dedicado à apresentação de peças de joalharia contemporânea. É uma oportunidade de ver — e, quem sabe, adquirir — obras de artistas emergentes e consagrados.
A exposição "What Makes Us Blind"
Também no Convento dos Cardaes, a exposição "What Makes Us Blind" abre a 23 de setembro, explorando os limites da perceção e da visão.
Informações práticas
| Detalhe | Informação |
|---|---|
| Local | MUDE – Museu do Design, Rua Augusta, 24, Lisboa |
| Datas | 25 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027 |
| Horário | Terça a domingo, 10h–19h (sextas e sábados até às 21h) |
| Bilhete | 11€ (descontos para estudantes, jovens 13–25 e seniores +65) |
| Curadoria Coexistências | Marta Costa Reis e Patrícia Domingues |
| Curadoria Coleção Tereza Seabra | Tereza Seabra, Manuel Castro Caldas e Marta Costa Reis |
| Design expositivo | Miguel Vieira Baptista (Coexistências) e Fernando Brízio (Coleção Tereza Seabra) |
Porque é que isto importa (mesmo para quem não é da área)
Pode estar a pensar: "Eu não percebo nada de joalharia contemporânea. Isto é para especialistas." Ledo engano.
Esta exposição não é sobre técnicas de ourivesaria ou sobre metais preciosos. É sobre como olhamos para o mundo. Sobre como damos valor às coisas. Sobre como nos relacionamos com os materiais, com os outros seres, com o planeta.
A joalharia contemporânea é, talvez, a forma de arte mais íntima que existe. Está no corpo. Toca a pele. Acompanha-nos nos movimentos. E, por isso, é também a forma de arte mais política — porque questiona o que é que escolhemos trazer connosco e porquê.
Quando vê uma gola feita de casca de cebola, ou uma pulseira de borracha que esconde ouro, está a ser convidado a pensar: o que é que eu valorizo? Porque é que valorizo isso? E o que é que isso diz sobre mim?
Conclusão: 502 razões para ir ao MUDE
O MUDE vai ter, a partir de 25 de setembro, uma das mais extensas apresentações de joalharia contemporânea alguma vez realizadas em Portugal. São 502 peças. 502 histórias. 502 convites à reflexão.
Se gosta de joias, vai adorar. Se gosta de arte, vai adorar. Se gosta de pensar sobre o mundo em que vivemos, vai adorar ainda mais.
E, já agora, se nunca pensou que uma casca de cebola pudesse ser bonita, prepare-se para mudar de ideias.
"E você, já visitou o MUDE? Vai aproveitar a Bienal para descobrir a joalharia contemporânea? Diga-nos nos comentários — e a conversa continua." ?
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Nota da equipa: A joalharia contemporânea é um universo fascinante que nos desafia a repensar o que é uma joia. Na Lusijoia, valorizamos a tradição da ourivesaria portuguesa, mas também reconhecemos a importância de olhar para o futuro. Esta exposição é uma oportunidade única de ver como outros artistas estão a reinventar a joalharia — e, quem sabe, de nos inspirarmos para continuar a criar peças que contam histórias.